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Sobre o Jesus gay do Porta dos Fundos

Sobre o Jesus gay do Porta dos Fundos

Data de Publicação: 29 de dezembro de 2019 09:34:00

Por Sinvaldo Braga
Canal 2N
09:34

O especial de Natal produzido pelo Porta dos Fundos para a Netflix que retrata um Jesus gay foi especialmente polêmico nesse fim de ano. O clímax dessa polêmica foi o atentado terrorista sofrido pela produtora do Porta na madrugada véspera de Natal (24).

Quatro pessoas tentaram incendiar com coquetéis molotov a sede da produtora que fica no Humaitá, bairro nobre na zona sul do Rio de Janeiro, por sorte um segurança do local conseguiu conter o incêndio logo no início.

Os que se ofenderam com uma simples e inofensiva sátira talvez ficassem escandalizados em saber que, sim, há possibilidade real de Jesus ter sido gay e isso não é blasfêmia, é história.

Autoridade no estudo sobre o Novo Testamento e na vida de Jesus, Bart Ehrman, Ph.D. em Teologia e professor de estudos religiosos na Universidade da Carolina do Norte, EUA, cujo livro O que Jesus Disse? O que Jesus não Disse? recomendo a leitura, afirma que os textos bíblicos sofreram milhares (isso mesmo, milhares) de mudanças ao longo desses 2 mil anos de história cristã, principalmente no período em que os textos eram passados de geração a geração através de cópias feitas à mão. As mudanças incluíam palavras, frases ou até mesmo textos inteiros que eram inseridos ou removidos, a depender das convicções de quem estava fazendo a cópia.

Lembremos que a imprensa só foi desenvolvida no fim do século XV, ou seja, foram praticamente 1.500 anos de cópias manuais em que todos os tipos de erros, intencionais ou não intencionais, como afirma Bart Ehrman, eram cometidos.

Bem, mas o que isso significa? Significa que quando um evangélico ergue a Bíblia na mão afirmando ser a palavra de Deus, é pouco provável que Deus tenha dito exatamente aquelas palavras. Talvez nem mesmo as tenha dito, como é o caso da passagem que relata uma mulher que teria sido flagrada cometendo adultério e Jesus a salva de um apedrejamento simplesmente falando aos presentes que “aquele de vocês que nunca pecou atire a primeira pedra”.

Bart Ehrman afirma que já é consenso entre os estudiosos do Novo Testamento que essa cena, apesar da beleza literária, nunca aconteceu, pois ela simplesmente não existe nos textos bíblicos mais antigos. Essa história era apenas mais uma entre milhares de lendas que se contava sobre Jesus nos primeiros séculos da era cristã e que em determinado momento alguém que fazia uma cópia, talvez bem-intencionado (ou não), resolveu inseri-la no evangelho de João.

Mas o que isso tem a ver com o Jesus gay? Tem tudo!

Ao contrário da história da mulher adúltera que teria sido inserida, existe um trecho do evangelho de Marcos que teria sido cirurgicamente removido logo nos primeiros séculos da era cristã. A passagem retrata uma cena um tanto quanto erótica de Jesus com um certo jovem que ele acabara de ressuscitar.

O tal fragmento diz: “E chegaram a Betânia. Havia ali uma mulher cujo irmão tinha morrido. Aproximando-se de Jesus, ajoelhou-se e lhe disse: ‘Filho de David, tem misericórdia de mim’, mas os discípulos a afastaram, e Jesus, enfurecido, saiu com ela para o jardim, onde estava o monumento, e logo depois ouviu-se um grito procedente dali. Jesus se aproximou e removeu a pedra da entrada do monumento. Em seguida, entrando no local onde estava o jovem, estendeu sua mão e o ressuscitou. Levantando os olhos, o jovem o enamorou e começou a lhe pedir que o deixasse ficar com ele. E, ao sair do monumento, eles entraram na casa do jovem, que era rico. Passados seis dias, Jesus lhe disse o que tinha que fazer e, durante a noite, o jovem veio até ele, usando um vestido de linho sobre seu corpo nu. E ficou com ele naquela noite, pois Jesus lhe mostrou o mistério do reino de Deus.”

Apesar de alguns historiadores garantirem que em algumas regiões da antiga Palestina o ritual de batismo se dava com o homem que seria batizado nu, era claro o potencial de confusão sobre a imagem divina de Jesus que essa cena poderia levar aos fiéis, daí o motivo de ter sido removida do evangelho de Marcos.

Mas esse fragmento poderia garantir que Jesus teria sido gay? Evidente que não! Mas também não há quem possa garantir o contrário. Óbvio que para aqueles que tem fé somada a uma dose extra de preconceito, não existe outra possibilidade que não seja a de um Jesus hétero, branco, de olhos azuis e de cabelos longos e levemente castanhos.

Quanto as suas características físicas, hoje já se sabe que os judeus que viveram na mesma região e época onde viveu Jesus eram negros, baixos (média de 1,60m), tinham cabelos crespos e olhos castanhos, um típico homem do Oriente Médio que vivia sob o intenso sol da região. Pressionados por pragas como a de piolhos, eles desenvolveram o hábito de manter os cabelos curtos.

Como Jesus era judeu de família também judia da antiga Palestina, como afirma a própria Bíblia, a possibilidade de ele ter sido branco, alto, de olhos azuis e usar cabelos longos é praticamente zero, então esqueçam as imagens de um Jesus europeu com as quais você cresceu rezando diante delas.

Uma possível aparência de Jesus criada por um artista forense baseada em achados arqueológicos de esqueletos de judeus da antiga Palestina você pode conferir logo abaixo.

Para finalizar, lembremos que Jesus foi radical quando o assunto era acúmulo de riquezas. Quando perguntado por um jovem rico o que deveria fazer para ser salvo, Jesus foi categórico: “vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me.” Para Jesus, seria “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus.”

Vejam que horror, Jesus parece ter sido um esquerdopata, um comunista vagabundo que não acreditava na meritocracia.

É irônico, mas talvez Jesus tenha sido tudo aquilo que os “cidadãos de bem”, típicos eleitores de Bolsonaro que se dizem defensores da família tradicional e de Deus, mais odeiam: além de preto e pobre, defendia os ideais políticos de esquerda e possivelmente era gay.

Amém!

Concepção artística do designer gráfico especialista em reconstituição facial forense Cícero Moraes da possível aparência de Jesus.

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