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História: 185 anos da Revolta dos Malês

História: 185 anos da Revolta dos Malês

Data de Publicação: 29 de janeiro de 2020

Por Canal2N Léo Mendes do Canal2N

Passou praticamente desapercebido, mas, agora, no dia 25 de janeiro, completaram-se 185 anos do chamado Levante do Malês, pois, trata-se de um episódio praticamente desconhecido e pouco estudado da história do Brasil.

A revolta eclodiu em Salvador! Entre a noite do dia 24 e a madrugada do dia 25 de janeiro de 1835, cerca de 600 a 700 escravos, a maioria de origem nagô, também conhecidos como “malês”, praticantes do islamismo, alguns versados no Corão, aos gritos de “Salamum aleikom, aleikom salam” (em árabe: “Que a paz esteja convosco”, em tradução livre), cumprimento típico do Islão, deram início ao levante.

Rapidamente, grupos de sublevados, vestindo abadá branco, tipicamente muçulmano, além dos amuletos no pescoço e nos bolsos; muitos deles tinham rezas e passagens do Alcorão, se espalharam pela cidade causando desespero na população branca (católica), especialmente na elite baiana, cujos membros apavorados fugiram buscando esconderijos nos engenhos próximos.

Na Bahia, a pobreza era generalizada; quase 90% da população vivia em condições degradantes. À época, Salvador tinha cerca de 65 mil habitantes; pelo menos 40% eram escravos e algo próximo a 80% eram negros ou mulatos submetidos à toda ordem de humilhações.

Dentre os escravos, os muçulmanos eram vistos como uma “elite intelectual” por serem alfabetizados em língua árabe e saber ler e escrever. Segundo os registros de um chefe de polícia, os “negros que sabiam ler e escrever carregavam um Alcorão e anel de prata”.

Os escravos muçulmanos não trabalhavam na sexta-feira, dia sagrado para a religião, e recolhiam dinheiro entre a comunidade dos libertos para dar aos seus senhores em troca do dia de folga. Também levantavam recursos para alforriar outros escravos. Muitos negros muçulmanos livres exerciam atividades comerciais (alfaiates, artesãos e carpinteiros).

Houve muitas revoltas escravas no período, mas a do Malês se destacou. Os líderes foram Pacifico Licutã, Ahuna, Manoel Calafante, Elesbão Dandará e Luis Sanim. Entre eles uma mulher, a heroína Luiza Mahin, que participou de quase todas as revoltas e levantes de escravos, mãe de Luís Gama, advogado e escritor abolicionista. Contavam com um fundo de 80 mil réis, recolhidos entre simpatizantes da causa.

Como em toda “jihad” (em árabe: “guerra santa” – tradução livre), era necessária a atuação religiosa de um “maulana”, líder religioso. Quem cumpriu a missão foi Ahuna, de origem nagô, com cerca de 40 anos e quatro marcas étnicas no rosto. Tinha o respeito de todos e era reconhecido como o general da batalha.

Segundo os registros históricos, uma negra liberta traiu a revolta e denunciou seus líderes. A repressão foi terrível. Pegos de surpresa, os rebeldes se dividiram e se espalharam pela cidade. Boa parte se dirigiu a Vitória, bairro de maioria malê, e ao convento das Mercês.

Alguns tentaram escapar pelo mar, mas se afogaram ou foram atacados por uma fragata à espera. Por muitos dias, as ondas de Salvador despejaram corpos na praia. A revolta envolveu cerca de 1,5 mil participantes. Houve 70 mortes durante os combates nas ruas da cidade.

Os corpos foram enterrados sem nenhum rito religioso, em vala comum no campo de pólvora. Quem foi a julgamento acabou condenado ao açoitamento ou morte, a maioria por enforcamento.

O objetivo da revolta era lutar contra a escravidão e a intolerância religiosa. Os planos estavam escritos em árabe. Por medo de novas revoltas, muitos negros seriam enviados ao degredo nos meses seguintes. Quem sobreviveu e ficou na Bahia viu-se obrigado a professar a fé na clandestinidade.

(Com informações de Carta Capital)

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