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As Encruzilhadas do Labirinto – Parte 3

As Encruzilhadas do Labirinto – Parte 3

Data de Publicação: 21 de março de 2020 11:45:00

Por Léo Mendes
Do Brasil 247
11:45

Nas primeiras partes destas reflexões, tentamos demonstrar, sem grande rigor analítico, como as forças armadas brasileiras se tornaram uma força política, ao longo do século XIX, especialmente em sua segunda metade; com precisão, a partir de 1870, ao final da Guerra do Paraguai.

Mais: apontamos que a ascensão política do Exército tem suas raízes entre os anos de 1820 e 1840, com bases no processo de nossa independência e por conta das ameaças de fragmentação territorial, de que foram exemplos, naquele momento, as revoltas da Confederação do Equador, no Nordeste, em 1824, e a Guerra dos Farrapos, no Sul, entre 1835 e 1845.

Agora, queremos também destacar os fundamentos ideológicos que impulsionaram a ação política de nossas forças armadas, lideradas pela alta oficialidade do Exército, e seu espírito golpista, elitista, anti-nação e anti-povo, que até hoje lhes caracteriza.

Nesse ponto, a resposta talvez esteja na disseminação no Brasil dos ideários do romantismo, do positivismo e do evolucionismo social, como sempre, mal lidos e, portanto, mal interpretados; filtrados e mesclados em uma (quase) religiosidade. Como já disse um poeta, é mais um exemplo de nossa “arte de viver na fé, [mas] não se sabe fé em quê”.

Assim, nossa versão tupiniquim do romantismo, na falta de uma “medievalidade” para exaltar, inventou o “indianismo”, idealizando a um só tempo o “índio europeizado” e a “exuberante natureza”, onde, pasmem, “coqueiro dá coco” (não, abacate ou abacaxi ou outra fruta) e, por isso, “nossos bosques têm mais vida”, então, “nossas vidas mais amores”!

Pois é, como para nossos românticos, oriundos de nossas classes dominantes, não tínhamos um povo ou cultura para ser exaltada, idealizavam então nossa natureza e sua “boa selvageria” (que coincidência, não?) personificada no elemento indígena tornado quase um cavaleiro medieval, mas, mais europeu, ainda que “nativo da América”, do Brasil, infelizmente!

Esse romantismo foi bem (a)ca(na)lhado ao evolucionismo social e ao seu principal derivativo brasileiro, a teoria do “branqueamento da raça”, até hoje tão cara à alta oficialidade das forças armadas e às elites brasileiras, afinal, como sempre ressaltam, “o Brasil é naturalmente rico, mas o povo...”. Pois é, o “povo é preto, é pobre (inclusive de espírito), é malandro, é preguiçoso...”; e por aí vai!

Ah! Se pudessem trocá-lo!

Tentaram! Na segunda metade do século XIX, a partir de 1850, quando as pressões inglesas, as revoltas dos escravos e o abolicionismo forçaram nossas elites agrárias ao processo de abolição da escravidão, “lento, gradual, seguro”. Então, paralelamente iniciaram o chamada imigração europeia para “matar dois coelhos”: substituição do trabalho escravo e o branqueamento da raça!

A tríade se completou, não por acaso, com a Guerra do Paraguai, quando a oficialidade do Exército conheceu e aderiu, quase religiosamente, às ideias do francês Augusto Comte. Em sua versão brasileira, como sempre, transmitida oralmente nas pregações dos dirigentes do Clube Militar, o positivismo reforçava a tese de que “o problema do Brasil é seu povo, preto, inculto, incivilizado” e “incapaz de entender as vantagens da civilização” (europeia, branca, etc., etc., etc.).

Essas ideias foram tentadas no projeto republicano do Exército articulado pelo dito “clubinho”, até hoje um conluio de golpistas fardados e desocupados, ao propor uma “república sem povo”, pois, afinal, disse outro poeta, aliás simpático a arroubos autoritários, que “a multidão precisa de alguém mais ‘alto’ (mais branco, mais capaz, etc., etc. etc.) pra lhe guiar”.

Pois é, como já disse noutros momentos, não ouso a afirmar que estas são as origens do arraigado espírito anti-povo, anti-brasilidade, golpista e elitista das forças armadas brasileiras. Mas, talvez esteja aí uma de suas mais profundas raízes.

Certamente, não é por coincidência que seus próceres, ainda reunidos ao tal “Clubinho do Pijama”, estejam entre os principais serviçais do governo fascistóide de Jair Bolsonaro e entre os líderes das convocações de manifestações contra democracia (política e social) e pelo restabelecimento de uma nova ditadura.

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