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Como a internet está deixando a pessoas mais burras e ajudando na disseminação de discursos de ódio

Como a internet está deixando a pessoas mais burras e ajudando na disseminação de discursos de ódio

Data de Publicação: 30 de novembro de 2020 12:40:00
Por Fabio Previdelli
Da AVENTURAS NA HISTÓRIA

Facilitadora do dia-a-dia, a internet se tornou um instrumento cada vez mais necessário no nosso cotidiano. Seja para planejamento pessoal ou até mesmo para manter um relacionamento social, a tecnologia transformou nosso jeito de pensar, agir, se comunicar e até mesmo de existir como ser.  

Se antes as coisas eram muito mais físicas, hoje o mundo está, literalmente, na palma de nossas mãos. Nas telas de nossos smartphones, por exemplo, podemos tanto saber o que está acontecendo do outro lado do mundo, como tudo que ocorre com nossos pais, filhos e amigos...  

Mas será que essa facilidade é tão libertadora assim? Será que a distância causada pela alienação do celular nos fez perder nossa essência como pessoas? E nossa educação, sabemos realmente tudo o acreditamos saber ou vivemos com uma falsa sensação de conhecimento?

Em entrevista exclusiva ao Aventuras na História, o neurocientista Fabiano de Abreu Rodrigues, pioneiro em estudos sobre a relação da mente humana com a internet, explica que, apesar da comodidade, nosso organismo não está preparado para essa facilidade. “Foram milhares de anos para desenvolvermos um cérebro para um determinado nível intelectual e em décadas estamos mudando esta evolução para algo mais simplificado”.  

“Até 1970 nossa sociedade estava se desenvolvendo e aprendendo bem com os erros do passado, em 1980 vivíamos um bom momento em termos de sociedade e pensamentos”, diz. “Havia uma evolução intelectual mais racional e diante disto, mais humilde. Hoje os efeitos do mau uso da internet estão a potencializar todos os defeitos que advém do nosso instinto primitivo, resultando assim em uma regressão, não igual a dos tempos mais remotos, já que as facilidades nos tornam piores”. 

Para Fabiano, apesar da internet nos proporcionar uma quantidade infinita de informações, somente uma minoria das pessoas sabe coordenar seu tempo para melhor usá-la. Com isso, muitos usuários possuem apenas uma ‘falsa sensação’ de sabedoria, baseada na facilidade que elas têm para buscar as notícias, mas isso não significa absorvê-las.

“Uma grande parte não busca o conhecimento, apenas interpreta o título e já define o contexto sem ler por completo um artigo na imprensa, por exemplo”, explica. Isso faz, segundo ele, muitos viveram em uma realidade abstrata.  

Um dos fatores fundamentais para isso, de acordo o neurocientista, é a economia de energia do cérebro. Por instinto, os seres humanos economizam energia para armazenarem em seu cérebro memórias que realmente sejam importantes e necessárias. Sendo assim, como temos o Google, por exemplo, nos dando todas as informações que precisamos na hora que queremos, acabamos não absorvendo essas informações.  

“Há também a questão da mídia social que fez florescer o narcisismo que há dentro de nós e o potencializou, tornou-o patológico”, alerta Rodrigues. “É um poder abstrato por detrás de uma tela, onde se tem a falsa sensação de poder. As publicações refletem-se em aplausos, em likes, mesmo que desmerecidos de consciência. Quem os recebe vê nos números uma condição de aceitação. A mídia social fez vir à tona a compensação da insegurança de uma sociedade insatisfeita”. 

Cientificamente falando, isso acontece devido a liberação de dopamina, um neurotransmissor que desempenha importantes papéis em nosso corpo e no cérebro. É ela que nos dá, por exemplo, as boas sensações de recompensa, além de outras condições naturais para sobrevivermos.  

“A questão é que a dopamina é viciante, quando um usuário de drogas tem abstinência por exemplo, é devido à falta dela”, diz Fabiano. E é justamente isso, inclusive, que faz as pessoas cada vez mais viciadas em internet.

“A cada like, comentário na rede social, cada conquista no jogo, cada iPhone comprado, a dopamina é liberada em proporções de acordo com a personalidade do indivíduo" afirma. Quanto mais liberada, maior a ansiedade para que libere mais, tornando-se assim um ciclo de dependência que leva ao estresse”.

A facilitadora internet é muito mais prejudicial do que muitos imaginam. Com seu uso constante, nossos neurônios se tornam menos capacitados, o que aumenta as chances de doenças na velhice, como a demência e outros derivados. Sendo assim, não seria nenhum absurdo afirmar que a ‘internet está deixando as pessoas mais burras’. 

Discurso de ódio e Fake News 

Como já apontado por Fabiano, as mídias sociais fizeram florescer todo o narcisismo que existe nas pessoas. Esse fator, aliado a falta de conhecimento e a razão abstrata faz com que a internet seja o palco de comportamentos de estresse, ansiedade, solidão, egoísmo e, principalmente, o distanciamento social uns dos outros.

Isso pode muito bem explicar as chamadas bolhas sociais, onde nos tornamos presos muito mais a pessoas que concordam com nosso pensamento e posicionamento, deixando de lado e menosprezando grupos que discordem de nossas visões. O ego e o narcisismo fazem com que as pessoas sejam cada vez menos politizadas e cada vez mais reis de suas próprias barrigas.  

Toda essa insatisfação pessoal e esse ar de superioridade, contribui — e muito — para o aumento de discursos de ódio e supremacistas nas redes sociais, segundo explica Fabiano. “Há um inconsciente que cobra e não há um consciente que percebe. Fica então instalado uma pendência indeterminada que causa revolta sem explicação consciente, que é descontada. Este narcisismo resulta em revolta do sucesso do outro. Há então a inveja, ou raiva do sucesso, ou até mesmo raiva de si e do mundo que resulta em atos de descontar no outro ou em algo”. 

Para o neurocientista, porém, ainda uma maneira de rever todos esses malefícios. “Devemos nos educar, sabermos usar a internet, controlar os horários e usá-la de forma que possa nos beneficiar e não prejudicar. Tudo na vida tem que ser em equilíbrio, tudo que é demais não é bom. Precisamos urgentemente delimitar horários não só em casa, não só dos filhos, da família, mas também temos que ter leis que controlam isso, como há em outros países”, conclui.

(Original aqui)

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