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Aonde vai o PT?

Data de Publicação: 7 de dezembro de 2020 16:34:00
Por Valerio Arcary
Da REVISTA FORUM

Qual será o destino do PT? Trata-se de um processo em disputa, ainda em “câmara lenta” e indefinido, numa incontornável luta interna, mas indivisível dos desafios colocados pela luta para derrotar o governo Bolsonaro. O critério de aparelhos dominados por rotinas burocráticas, quando há turbulência, é não fazer nada. Deixar como está para ver como é que fica. Este critério, se prevalecer, seria fatal. Subestimar os problemas não parece ser uma opção.

Há três grandes hipóteses. Hipóteses não são prognósticos. Hipóteses são modelos de trabalho com a mente aberta. Elas estão condicionadas pelo desenlace da luta de classes, que é imprevisível. Há uma relativa autonomia dos processos na superestrutura política. Mas esta relativa autonomia é estreita.

Grosso modo são três cenários: (a) ou o PT se transforma e se reposiciona como uma ferramenta útil para derrotar Bolsonaro; (b) ou tudo continua como está, e o espaço que mantém será, pelo menos, parcialmente, ocupado por um bloco liderado por Ciro Gomes, o que seria regressivo, ou um desdobramento reacionário; (c) ou o PT será substituído pela esquerda, sobretudo, na juventude, pelo PSOL, o que seria progressivo.

Tudo vai depender, por um lado, da eclosão ou não de uma onda de luta em patamar mais elevado, antes de 2022. Por outro lado, da conquista ou não dos direitos políticos de Lula, e de sua disposição de apoiar, ativa e corajosamente, a resistência.

Se prevalecer a inércia do quietismo, ou seja, a decisão de “jogar parado” e esperar as eleições de 2022, Ciro Gomes deverá se fortalecer. Subestimar Ciro Gomes seria um erro imperdoável. Se o PT continuar com apoio declamatório às lutas parciais de resistência, enquanto seus governadores, prefeitos e a bancada federal fingem que não existe um governo de extrema-direita em Brasília, então a crise vai se agravar.

A transformação do PT passa por uma nova direção. O que não é possível sem uma divisão de sua corrente majoritária e o triunfo de uma “revolução interna”. Sem uma nova direção disposta a correr riscos, tencionar as relações com a burguesia na luta contra Bolsonaro, o PT definhará. Esta decadência já começou, mas não é irreversível.

O Labour permanece, há cem anos, como o principal partido da classe trabalhadora britânica. Ensaiou até uma recuperação de influência na juventude sob a liderança de Jeremy Corbin. Nunca surgiu uma força política na esquerda que pudesse ocupar o seu lugar. Mas o Reino Unido é uma das fortalezas históricas do capitalismo. Nunca conheceu uma situação pré-revolucionária. Não é fácil ser marxista na Inglaterra e os mais capazes se dedicaram a intervenção nos sindicatos, ou a escrever livros de história.

O Partido Comunista na Itália, que foi durante quarenta e cinco anos o principal partido da classe trabalhadora, deixou de existir. Em perspectiva, foi um processo regressivo, sob o impacto da restauração capitalista na ex-URSS. Não surgiu nada muito animador na esquerda italiana nos últimos trinta anos.

Já o PSOE, na Espanha, se preservou durante trinta anos, mas perdeu influência na juventude, desde 2012, para o Podemos de Pablo Iglesias, que teve uma dinâmica prometedora, ainda que somente por alguns anos. O Partido Comunista em Portugal mantém sua influência no movimento sindical organizado, quarenta e cinco anos depois da revolução dos cravos, porém, envelheceu em uma lenta, orgulhosa, e irreversível decadência. O Bloco de Esquerda surgiu, e vem se fortalecendo, pacientemente, um fenômeno progressivo.

Acontece que as sociedades europeias são muito diferentes das latino-americanas, mais frágeis economicamente, mais desiguais socialmente e mais instáveis politicamente. A experiência histórica confirmou que os militantes mais ativos nos movimentos da classe trabalhadora preferem estar mal organizados, a estar desorganizados. Há uma força de inércia na representação política, mas não, indefinidamente. Nenhuma organização política se perpetua. Nada se eterniza, nem os grandes líderes.

Os partidos são coletivos suscetíveis ao impacto dos grandes choques na luta de classes, e estão sempre em transformação: se fortalecem quando se posicionam como instrumentos úteis à frente de grandes lutas e se enfraquecem quando se abate sobre seus ombros o peso de grandes derrotas. 

 O ciclo da influência do Partido Comunista foi de duas décadas. Ele se iniciou como um processo de vanguarda na resistência à ditadura Vargas entre 1937 e 1945, mas deu um salto para a influência de massas com a derrota do nazi-fascismo ao final da segunda guerra mundial. Durante o intervalo de uma geração, o PC foi a principal organização de esquerda no Brasil, mesmo clandestino, explorando as limitadas possibilidades das condições de semilegalidade. Seu destino foi decidido com a derrota histórica de 1964 e, com ele, o de Luís Carlos Prestes.

 A onda de ascenso de 1968 impulsionou uma primeira reorganização que teve as organizações inspiradas pela vitória da revolução cubana como protagonistas. Mas a derrota da heroica resistência armada, a partir de 1969, interrompeu esta experiência. Somente a partir de 1978/79 se iniciou, quinze anos depois de 1964, um novo ciclo de reorganização da esquerda, sob o impulso da entrada em cena do movimento operário com as greves do ABC e da massificação do movimento estudantil que deu origem ao PT.

O intervalo de uma geração separava a militância que construiu o PT daquela que tinha reconhecido o PCB como sua referência antes de 1964. O PT conquistou a posição hegemônica na fase final da luta contra a ditadura militar. Conseguiu preservar esta posição ao longo dos últimos quarenta anos, tendo Lula como sua referência. Mas, em perspectiva histórica, parece claro que as derrotas acumuladas entre 2016/2018 têm um peso devastador sobre o destino do PT.   

O projeto de que o PT poderia interromper a dinâmica de sua crise era uma hipótese plausível e ainda permanece viva como estratégia da esquerda petista, ainda que debilitada, em função de variados fatores. Parecia mais animadora em 2018, quando se demonstrou irrefutável a autoridade política de Lula, mesmo preso, de transferir apoio para Fernando Haddad e levá-lo ao 2° turno contra Bolsonaro, além de eleger 53 deputados federais e vencer para governador as eleições na Bahia, no Ceará, no Rio Grande do Norte e no Piauí.

Dois anos depois parece muito mais difícil, ainda que não seja impossível que a corrente majoritária do PT venha a se dividir liberando forças para uma nova direção, uma condição sine qua non para uma mudança. Mais difícil porque, em primeiríssimo lugar, depende do papel de Lula.

Ficou confirmado em 2018 que a experiência com o reformismo, em especial o lulismo, não tinha sido esgotada, mas interrompida. Mas ficou, também, claro, em 2018, com o respeito que candidatura Boulos conquistou, que uma nova geração procurava representação política através do PSOL, nas manifestações do #elenão, e no #viravoto do 2° turno. Abriu-se uma etapa de transição na esquerda brasileira.

A experiência com o PT ficou e permanece incompleta. Mas uma parcela do ativismo que despertou para a militância nas jornadas de junho de 2013 e alimentou de dinamismo o movimento estudantil, impulsionou o movimento de mulheres, potencializou o movimento negro, garantiu visibilidade ao LGBT, além da legitimidade da luta indígena, do compromisso com a causa ambiental não se reconhece mais no PT. 

Afinal, o que é o PT em 2020? O PT é o maior partido que a classe trabalhadora brasileira construiu em sua história. Conheceu uma gênese nos anos oitenta, o apogeu na virada do milênio, e entrou em uma lenta, porém, ininterrupta decadência desde 2013.

O PT é um tipo especial de partido de esquerda. É um partido eleitoral, reformista, mas não mantém relações orgânicas com a burguesia. Eleitoral, não porque concorre a eleições, mas porque depende, há muitas décadas, dos mandatos parlamentares e do financiamento público para sobreviver, e não da sua militância.

Reformista, não porque luta por reformas. Reformista porque defende a regulação do capitalismo, portanto, a colaboração de classes, como ficou irrefutável depois de treze anos no governo. Mas a condição eleitoral e uma política reformista não transformam o PT em um partido burguês. Um partido é burguês quando mantém relações estruturais com alguma fração dos capitalistas. Portanto, o PT é, qualitativamente, diferente do peronismo. É diferente, porque é um fenômeno superior, histórica, social e politicamente.

Reconhecer a natureza de classe de um partido não equivale a dizer que sua política representa os interesses da classe. É muito mais complicado. Um partido reformista pode ser um instrumento adaptado à gestão do capitalismo e, ao mesmo tempo, independente da burguesia. Resumindo uma longa história e sendo, portanto, “brutal”, o PT nos anos oitenta, com erros táticos aqui ou acolá, foi um instrumento poderoso de representação dos interesses de classe e cumpriu um papel progressivo. Ao longo dos anos noventa oscilou muito e, depois que conquistou a Presidência prevaleceu o papel regressivo, porque se reduziu a um apêndice do governo.

Mas a prova no “laboratório da história” sobre o PT foi que, em 2016, a classe dominante brasileira se unificou para derrubar o governo Dilma Rousseff e organizou uma campanha para criminalizar sua direção e destruir, politicamente, sua máxima liderança: Lula.

Ficou claro que a operação Lava Jato, embora tenha atingido, também, PSDB, MDB, PP e outros, obedecia a uma estratégia de luta pelo poder e isso exigia deslocar o PT. A fúria de classe da burguesia confirmou que não era um partido burguês. Mas não somos metafísicos, vamos além do aristotelismo.

Portanto, dialeticamente, em outro grau de abstração, todos os partidos reformistas, são partidos do regime democrático-liberal, dependentes da institucionalidade e, ainda que na oposição aos governos capitalistas, são, até independente da vontade de seus líderes, funcionais como válvula de escape.

Marxistas da III Internacional usavam uma fórmula para identificar esta integração na defesa dos limites da ordem estabelecida: definiam a social democracia como um partido operário-burguês. Ou seja, partidos independentes da classe trabalhadora, com direções que capitulavam diante da pressão da classe dominante. Quando no governo, com responsabilidades de gestão do Estado, ocupavam o lugar de um partido burguês-operário.

Mas como tudo que existe os partidos, também, se transformam. Em resumo, o PT de 2020 é, evidentemente, muito diferente do PT de 1980. A direção do PT é, em grande medida, a mesma, mas estes quarenta anos não passaram em vão e o partido que nasceu na luta contra a ditadura não é mais o mesmo. Mas ainda existe.

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