Português Italian English Spanish

O fenômeno bolsonarista e o remédio universal (Não, não é a Cloroquina), por Luís Augusto Castellon

O fenômeno bolsonarista e o remédio universal (Não, não é a Cloroquina), por Luís Augusto Castellon

Data de Publicação: 29 de março de 2021 13:19:00
Por Luís Augusto Castellon
Do CANAL 2N

A capacidade de “escolher dentre” as opções viáveis, levando em conta os fatos da realidade, é o que descreve “inteligência” na sua raiz etimológica, que vem do latim intelligere (intus = dentro e lègere = recolher, escolher). Coincidências não são à toa. O que falta no atual governo brasileiro é justamente a capacidade intelectual de escolher dentre as melhores opções e de executá-las, de modo planejado e articulado. O que ocorre, ao invés disso, é uma denegação (ou um sub uso) da própria evolução do conhecimento humano e da natureza, que nos presenteou com a maravilhosa faculdade cognitiva chamada, não ironicamente, “função executiva”.

O fenômeno do bolsonarismo despertou inúmeras questões sobre os danos e os riscos da incompetência de quem está à frente do poder executivo do país Brazil. O fato é que a população espera de um líder político o mínimo de bom senso e de articulação nacional e internacional, de forma inteligente e seguindo um mínimo de decoro, preservando os interesses do povo e sendo norteado pela realidade, que urge por uma intervenção efetiva dos governantes. Porém, não é o que ocorre na atual situação pandêmica no nosso país, sendo as ações do governo brasileiro pautadas num negacionismo explícito da ciência e um desprendimento do real, desnorteados por um delírio que beira a esfera psicótica, ou pior, a esfera perversa. O custo disso foram centenas de milhares de vidas brasileiras perdidas no último ano.

A grosso modo, foi por meio da observação das estrelas que a ciência moderna foi conquistando espaço no imaginário da espécie humana, a partir da contribuição de tantos filósofos e cientistas (peculiares na sua forma de pensar o mundo), que deram a vida para defender seus ideais. Claro, isso não se deu sem a resistência de uma parcela negacionista da humanidade, que teve o cerne do seu poder ameaçado com as implicações das descobertas revolucionárias. Apesar disso, independente do que pensávamos antes ou depois, a terra continuou sendo redonda e dando voltas em torno do Sol, sem se importar com nossa opinião narcísica e irrelevante sobre o seu trajeto.

Ainda assim, a capacidade de observar a realidade e desvendar os fatos da natureza por trás dela, através de um pensamento sistemático, é o que nos permite concluir que as leis que agem numa pedra sob nossos pés são as mesmas que agem nas estrelas sobre nossas cabeças. E é justamente através do conhecimento que conseguimos voar com nossos pássaros metálicos, nos transportando para o outro lado do globo, enquanto vemos fotos coloridas na tela do nosso retângulo mágico, por exemplo. Mas para além de aviões e celulares, as leis da natureza que nos permitem esses feitos sempre estiveram aí correndo à solta, bastando alguns homens de gênio lê-las e espalhar as boas novas aos demais, com algum esforço.

Desse modo, é através da inteligência humana, aliada à sua ação colaborativa da espécie, que nos é permitido ter o poder sobre a natureza e nos elevar sobre a condição dos outros animais. Tendo isso em mente, ignorar o que a ciência moderna diz, no que tange à urgente vacinação da população por exemplo, no atual contexto de novo pico de mortes pelo COVID-19, não faz sentido algum, a não ser que sejam cogitadas pelo obscurantismo (des)intelectual que nos deixa à mercê da fatalidade natureza, que sempre seguiu seu curso sem perguntar nossa opinião desimportante. E dessa vez não será exceção.

Obviamente, as leis que governam as culturas e as sociedades são diferentes das leis universais da natureza. Ainda assim, as sociedades humanas (o)usam dos benefícios da ordem que a natureza oferece como virtude, empreendendo-as no bem estar humano. Porém, o grande desafio nesse processo, que está escancarado à nossa frente, é o de vencer o lado obscuro da própria natureza humana, na sua inclinação de ser desejante. Ou melhor, vencer o desejo que advém de uma inclinação inconsciente para o prazer na morte, na ignorância, na violência e na animalidade, moldados segundo configurações ainda mais sombrias dos interesses e da cultura capitalista, onde tudo se torna entretenimento.

A humanidade precisa se reinventar rapidamente, de forma a repensar seus princípios de ação, tendo governantes sérios e cognitivamente competentes para estar à frente da situação, de forma a pesar numa balança o bem-estar e desenvolvimento humano de um lado e os interesses mesquinhos, narcísicos e antissociais no outro. Nas palavras de Melanie Klein, "quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso". Portanto, que seja dada mais uma mordida faminta para que tenhamos a chance mínima de escapar desse inferno.

(O autor é estudangte de Psicologia/UEPB)

  2 comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Envie seu comentário preenchendo os campos abaixo

Nome
E-mail
Localização
Comentário

Se o Nelson Rodrigues fosse vivo hoje, nesses tempos Pandêmicos, certamente refaria sua famosa frase para: O brasileiro não é solidário nem no câncer.

Se o Nelson Rodrigues fosse vivo hoje, nesses tempos Pandêmicos, certamente refaria sua famosa frase para: O brasileiro não é solidário nem no câncer.