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Uma loba em pele de ovelha

Uma loba em pele de ovelha

Data de Publicação: 4 de dezembro de 2019 09:24:00

Por Sinvaldo Braga
Canal 2N
09:24

Praticamente ninguém notou, nem mesmo os dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública de Parauapebas (SINTEPP) se manifestaram. Sem alarde, a vereadora Eliene Soares (MDB) fez uma Indicação ao governo municipal que diz muito sobre seu novo (ou velho) perfil político.

A Indicação em questão é a de número 418/2019 aprovada pela unanimidade dos 12 vereadores presentes na sessão ordinária do dia 05/11/2019. Nessa, Eliene pedia que “o exmo. sr. prefeito municipal de Parauapebas, Darci José Lermen, avaliasse a possibilidade de inscrever uma escola da rede municipal no Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares do Governo Federal”.

Segundo sua biografia escrita no site da própria Câmara Municipal, Eliene Soares é formada em Letras, Administração e Formação de Professores. Por ironia do destino, Eliene começou sua carreira política como diretora em uma escola que se chama, vejam só, Jean Piaget. O nome da escola homenageia exatamente um dos pensadores mais respeitado no campo da pedagogia e ferrenho crítico do ensino tradicional e autoritário.

Mas a ironia não fica apenas no nome da escola, Eliene era militante do PT e vivia desfilando com certo orgulho suas roupas vermelhas por onde passava. Com a ajuda de seu sempre aliado de primeira ordem, Luiz Vieira, foi eleita vereadora pela primeira vez em 2012. Ser filiada ao PT e militante de esquerda parecia ser motivo de orgulho. Parecia, mas as aparências enganam.

Até as pedras sabem o motivo do Governo Bolsonaro ter lançado esse tal Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares do ensino básico, portanto concluo que a vereadora também saiba. O real motivo passa a alguns anos-luz de distância de “elevar a qualidade e os indicadores educacionais em áreas de comprovada vulnerabilidade social”, como justifica a vereadora em sua Indicação.

Desde janeiro, a ala manicomial do governo Bolsonaro, guiada pelo astrólogo Olavo de Carvalho, decidiu que um dos principais objetivos da gestão do Capitão seria travar uma luta contra um tal marxismo cultural que é ensinado nas escolas públicas do Brasil.

Não fosse as ações que essa turma vem realizando a fim de catapultar o ensino das escolas públicas diretamente para idade média, seria até cômico seus delírios esquizofrênicos que incluem mamadeiras de piroca, kits gays e Terra plana.

Pois bem, desse delírio coletivo da ala manicomial do governo Bolsonaro nasceu a ideia de promover a ampliação do número de escolas militares pelo Brasil. A finalidade, nas palavras do próprio presidente e líder da ala manicomial, seria afastar as crianças e jovens de professores esquerdopatas que estariam ensinando crianças a serem gays e maconheiras – assim mesmo nesses termos – e colocá-las sob escolas e professores que promovam um ensino TRADICIONAL.

Para o Programa o governo reservou 54 milhões de reais. Desses, 28 milhões, ou seja, mais da metade irá para o Ministério da Defesa pagar os salários dos oficiais de pijamas das Forças Armadas que irão para as escolas sem nenhuma qualificação pedagógica, apenas para garantir a “ordem e disciplina” no ambiente escolar. Para esses, a escola tem a única missão de fazer com que alunos decorem fórmulas matemáticas e datas de eventos históricos.

A nobre vereadora, que é formada em Formação de Professores, talvez já tenha ouvido falar de Paulo Freire, o educar mais prestigiado no mundo e referência para o ensino dos países com melhores índices de educação, como, por exemplo, a Finlândia, que construiu até mesmo um Centro em homenagem ao educador: Centro Paulo Freire Finlândia que fica na cidade de Tampere. Não se sabe de nenhuma escola Cívico-Militar em funcionamento naquele país.

Pois bem, digníssima vereadora, para essa turma que idealizou o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares do Governo Federal, Paulo Freire é palavrão, uma espécie de anticristo. Mas enfim, duvido que a senhora já não soubesse disso no momento em que apresentou a fatídica Indicação ao governo municipal, o que me faz pensar: seria a senhora uma dissimulada, uma espécie de loba em pele de ovelha, ou apenas alguém com uma risível capacidade de raciocínio com convicção de que a Terra é plana?

Enfim, os professores têm uma dívida com o prefeito Darci Lermem que também é professor: a de ter delicadamente direcionado a Indicação da vereadora a um lugar de honra em seu gabinete: a lata lixo.

A frase atribuída a Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo”, parece ter sido escrita sob medida para a nobre vereadora Eliene Soares.

Por último, vereadora, permita-me um conselho: na falta do que indicar, não tente inventar nada inteligente, você não ostenta atributos para isso, lembre-se de que sempre existirá uma rua precisando de quebra-molas ou um cruzamento de semáforo.

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